22.6.07

Canja de galinha não faz mal à ninguém


(homem sentado em frente à tv desligada. ouve atentamente o seu reflexo)


Foi mais ou menos depois que você se tornou adulto… de novo. Começou a ter essas visões perturbadoras sobre as coisas que te rodeavam. Das coisas que dificilmente eram verdadeiras, às vezes pareciam reais e quase sempre eram assustadoras.

Passou longos meses deitado de bruços entre o que era real e o que não deveria ser. Nessa época, você escrevia tudo o que acontecia de estranho. Acho que para se manter preso à realidade. Ou para se desvencilhar de pensamentos insanos.

Achou essas folhas de papel. Logo essas. Uma pequena parte do que aconteceu naquela noite no seu primeiro ano aqui… sexto andar do Edifício Alencar Oliveira Mafra, centro da cidade.

(corta para homem no mesmo apartamento, em outra época, segurando folhas de papel e lendo alguns garranchos)

algo está acontecendo
não sei o que é
mas algo está acontecendo
alguém está morrendo ou coisa parecida… não importa
algo está acontecendo

algo continua acontecendo
continuo não sabendo o que é
mas continua acontecendo
alguém está morrendo ou coisa parecida… não me importo
algo continua acontecendo

algo parou de acontecer
se tinha alguém morrendo ou coisa parecida...
não acontece mais

meu telefone
é alguém querendo conversar
é uma mulher que fala da vida
dos medos...
o da morte e o de gente

me diz que as coisas acontecem ao nosso redor
e não nos damos conta disso
me diz que ninguém mais se importa com nada
que qualquer dia desses
ela vai assar alguém com batatas
e convidar a família para um jantar
isso me deu arrepios

diz que estamos cada vez mais independentes
e que é muito difícil viver nessas circunstâncias
diz que tentou de tudo
até namorar gêmeos… que também não está dando certo
e que na verdade
não queria aceitar o fato de que o ser humano está em mutação

ela se diz crente na mudança dos paradigmas sociais e físicos
que o sentimentalismo é coisa do passado
as pessoas vão se tornar assexuadas
a gente vai se comer… vai se foder

eu desligo o telefone

o telefone toca de novo
é a mesma mulher
ela pergunta porque eu desliguei o telefone
eu digo que estou com medo
ela diz que isso é uma bobagem
e que só queria desabafar um pouco
diz que está preparando um jantar e me convida para subir
andar de cima

tenho medo
digo que não estou com fome
ela diz que está preparando a comida há muito tempo
e que seria desfeita minha não subir para comê-la

eu insisto para deixar isso para um outro dia
está tarde
ela começa a reclamar da vida novamente
reclama que ninguém se interessa pelos problemas alheios
e que é por isso que o mundo está do jeito que é
diz que ela é fruto dessa podridão em massa
que tentou de tudo
que a merda está toda jogada no ventilador
que o negócio agora é agüentar as conseqüências
e que é por isso que tudo está perdido
me acusa de não ouvi-la
ela se exalta
fica nervosa
começa a xingar baixinho

ouço uma voz abafada ao fundo da conversa
ouço logo em seguida um golpe seco e duro e pontual
a voz se cala
ela diz que está tudo pronto
para eu subir enquanto a comida está quente

eu resolvo subir
chego ao apartamento
ela me dá um forte abraço e me convida para entrar
o grito desenhado no canto que sobrou branco da conta de luz
festim diabólico... pensei

ela me chama para ir até a cozinha
diz que a comida está pronta
e que vou adorar
eu entro na cozinha

ela cantarola
jean pierre jeunet… jeunet… jeunet

sento e ela põe um caldeirão enorme em cima da mesa
ensopado, ela diz
abro a gigantesca panela
e me vejo refletido na água purulenta do guizado
dou uma risada e digo
olha, sou eu

(corta para homem sentado em frente à tv desligada. ouve atentamente o seu reflexo)

Você sabe que é penoso ficar lendo o passado, mas é assim que se recupera das brigas conjugais. Pra se lembrar de quem você era, como era, onde era. Pra lembrar de Otelo... “se depois de toda tempestade vêm tais calmarias, que soprem os ventos até acordar a morte”.

Foi o dia que vocês se conheceram. Agora ela está a caminho do seu apartamento. Você já perguntou milhões de vezes, pra que? Ela diz que vale a pena e que está com fome. Faminta! E que vai preparar um ensopadinho.

marcelo veloso

13.6.07

da série não me convide

- é uma roda de discussão sobre a prolixidade no mundo acadêmico e novas formas de ambientalização descritiva... vamos?
- é mais fácil um escaravelho fazer mel.

marcelo veloso

da série sexo minimalista

me lambe... agora chega!

marcelo veloso

12.6.07

da série saudades de casa

deus inventou o homem
que inventou a vaca
que inventou o existencialismo bovino

marcelo veloso