31.8.05

machado

_ decifra-me ou devoro-te
_ diz a ciranda da vida que se você não é o meu melhor, não serve para mim. E se não sou o melhor de ninguém, não sirvo para nada. Só para morrer devorado
_ ah, morra devorando, companheiro!
_ devoro tua perna, isso sim, a começar pelas coxas.

marcelo veloso e flávia salme

17.8.05

da série nano conto de ninar

acho que a minha vida só começou mesmo no dia que me vi nu
lambuzado de sangue
e pendurado pelos pés

entender a situação estava distante até então da minha realidade

o que está acontecendo?
quem são essas pessoas ao meu redor?
porque anseiam tanto pelo meu pranto?
porque me cortam com essa tesoura?
meus pés
por favor, não tirem sangue dos meus pés
porque me levam?
para onde?
não sou culpado de nada
não que eu saiba

sabia que, provavelmente, aquilo poderia não acabar bem
então logo formulei meu primeiro palpite para aquela nova vida
dando tudo errado
grite
e gritei

que momento para um recém nascido


marcelo veloso

16.8.05

disse

ela diz
não minto
a verdade só espanta os hipócritas

ele diz
disfarço
a pornografia sentimentalizada pela escrita é apenas uma vontade explícita

e reprimida


marcelo veloso

4.8.05

não é nada disso

não é porque estou indo, que você também precisa ir
você fala e fala... me canso só de pensar
você diz agora e continua falando
você pede mas não percebe
quanto mais se quer, menos se consegue
não vê? não, não vê! não percebe
só fala e continua dizendo
e isso vai se tornando rotina
vai se tornando realidade
vai se fazendo mais fim
mais do fim que do começo
e isso nós não percebemos

não é porque choro, que vai enxugar meu pranto
os dias tornam-se noites
e por mais vezes que isso seja certo,
sempre esperamos que certos dias nunca acabem
e acabam-se por deixar que terminem
você insiste
e tenta me mostrar o que eu não quero ver

não é porque peço, que precisa negar
mais uma vez estamos aqui
criamos essa imagem
e passeamos pelas esquinas,
procurando por algo que na verdade sempre esteve dentro de nós
então você esconde nas palavras a maldade
e a insegurança
e acha que não percebo

não é porque não minto, que vai acreditar
me deixo pensar que isso está nos consumindo
está nos deixando amargos
e que dê tempo às horas,
pois pensamos em nos deixar
então você fala que vai me deixar por aí
e eu acredito

não é porque falo, que vai me ouvir
eu digo o que quero
deveria ter dito há muito tempo
você se cala e ... retrai
vai afundando no pano,
misturando os travesseiros,
os cheiros
eu continuo falando e da fala me engasgo,
com medo de me perder dentro da minha própria cama

não é porque te olho, que vai me ver
quando a vontade cessará?
o quanto tenho a viver, pensar
e se isso for real?
se os sonhos não fossem sempre em preto e branco,
talvez eu poderia enxergar em vez de olhar e não ver

não é porque acho, que vai saber
essas mãos, esses pés, essa nuca
isso me consome
isso me faz mais morto que a própria certeza de estar vivo
esse mundo paralelo, distante
das vezes que disse,
pensou mas não disse,
disse,
mas não quis dizer absolutamente nada

não é porque penso, que vai existir
você acha, discute, decide
separa o que é seu, o que é meu
e leva consigo tudo o que é nosso
transforma-se um mito,
mentira

não é porque te mato, que vai ressuscitar

marcelo veloso

2.8.05

metu

a cidade fica do lado de fora da janela do meu quarto
a que eu mantenho fechada
as persianas e a vidraça
moro com meus medos
da morte e de gente

estamos procurando um novo apartamento
eu e meus medos
precisamos de mais espaço
e telhado
já resolvemos morar no centro
e no último andar
meus medos gostam de se exibir na janela
em andar muito alto então
é o céu
gostamos dessa decrepitude urbana
dos dementes

não temos o costume de sair de casa
e se é para sair
saio sozinho
pra manter a vida
pensar se existo
atrás de comida e do que me alimenta

os pés prostrados na calçada
sustentam esse corpo que acha
que dá ouvidos a esses dois loucos
que me perturbam desde que saímos de casa

meus medos forçam a exposição da vida... dos problemas
é a maior pista não apenas da minha ridicularidade
mas também a falta da coragem em expulsá-los de casa

meus medos são antítese de crescimento
e do que seria sem eles
regulam minha vida pelo mínimo
os fatores máximos do que deixo
e da minha adaptabilidade

meus medos são jaula
me impedem de ir

a distração é da normalidade

me deixam para trás
sem ousar outro caminho

é distante a idéia da amplitude já que ocupam toda minha vida
e sem mesmo que eu perceba
espero apenas o momento certo
espero e pergunto
e aí
vamos dar uma voltinha?

marcelo veloso