(homem entra no táxi – o carro sai)
- centro, por favor.
- rio branco?
- passos… perto da tiradentes.
(roda dois quarteirões – homem puxa conversa)
- ... e a madrugada?
- por enquanto bem tranquila.
- as madrugadas não são as mesmas.
- nunca são.
- ... antes eu só encontrava perdidos na noite, como o programa, lembra?
- ... tatá e escova.
- dois loucos.
- conheço os dois... de verdade.
- dois loucos... de pedra.
- o escova é pai da laura... casou com meu sobrinho. festão!
- que louco.
- o meu sobrinho?
- não! que louco vc conhecer o escova.
- e o tatá.
- esse tipo de gente a madrugada não produz mais.
(silêncio)
- ... já viu um poste desesperado por atenção?
- (deboche)… acordado não!
- é… mas eles estão aí, atravessando ruas, de calçada em calçada, trocando informação com os fios embolados.
- poste… atravessando rua?
- tô te falando… é concreto.
- sei.
- um paradoxo! é concreto… mas ninguém vê.
- é mesmo é?
- ninguém presta atenção! eles estão lá… mas ninguém vê. a gente só dá conta quando bate num.
- ah… claro, mas estes estão nas calçadas, né? porque… olha, não tenho visto poste atravessando rua… nem na faixa.
- não, eles nunca vão pra faixa… é uma zona de controle! olha, sou taxista há 35 anos… eu sei do que estou falando.
- (cético)... entendo.
- esses aí, que precisam de atenção, atravessam a rua pra serem vistos… dizem que há razões… é uma trupe muito carente. às vezes, antes de dobrar alguma esquina, apago o farol para ver se vejo faísca… sempre há faísca.... é muito fio, tudo velho, desencapado.
- bizarro! e pq um poste precisaria de atenção?
- categorias! uns postes têm luz, outros não… muitos são cabeados… internet, canais fechados de tv, telefonia de alta tecnologia. é muita informação para um poste, não é?
- é.
- agora, alguns… pobres diabos… vivem apenas de gatos.
- e querem nossa atenção pq não têm acesso à informação?!
- informação é poder… já leu “a revolução dos bichos”?
- … vc não tá falando sério.
- já parou pra contar quantos deles estão nas ruas todos os dias? se um poste quer atravessar uma rua, ele deve querer muito mais… querer é poder.
- o que a revolução russa tem a ver com poste atravessando rua?
- que revolução russa?
- orwel estava falando sobre a revolução russa.
- quem?
- o autor, ele estava falando sobre o estado russo... é uma fábula feita sob medida. todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que os outros.
- ... os bichos eram revolucionários, mas eram porcos.
- é, mais ou menos isso.
- é o mesmo princípio cara… pô!
- ééé... mas do jeito que vc está colocando... olha, uma revolução nasce da intelectualidade… mesmo que ela seja uma arma proletária. se fosse uma revolução, teríamos postes cabeados atravessando ruas… não postes carentes e deprimidos à procura de atenção. é patológico, não é político… tarja preta, terapia cognitiva e acompanhamento psiquiátrico!
- não é assim não. está no ar… é setembro. sempre é setembro nessa época do ano.
- olha, um poste nunca chegará ao poder… e se vc quiser mesmo fazer uma relação à orwel, vai perceber que o poder só troca de mão… é poste por poste.
- … fazem de tudo pelo poder. se metem no caminho a qualquer momento.
- desvia.
- não, não é tão simples assim… eles vêm para o meio da rua, tento desviar… não dá.
- é uma bela desculpa para chegar em casa com o carro batido: querida, um poste bêbado se jogou na frente do carro.
- que bêbado, mermão!... revolucionários!
- (sarcástico) é, revolucionários! subversivos!
- olha cara, algumas coisas são inevitáveis… é hipnótico! vc pode achar bobagem, mas o que vc me fala sobre telecinética? eles carregam muita energia, não há como negar.
- não há como negar que essa con…
(interrompendo) - ali, ali! comunista manipulador de mentes…aaaaaaahhhhhhh!
(o táxi vai de encontro ao poste)
(homem se livrando do cinto de segurança) – puta que pariu, o que você fez?
- matei o desgraçado!
- matou um poste… que está na calçada, pô?
- agora ele está… de onde nunca devia ter saído.
- ele nunca saiu daí… seu… seu maluco!
- vc não viu? fomos direto… te disse, é inevitável! são rápidos como uma lebre.
- vc é uma aberração da natureza, isso sim… meu deus… vá se tratar!
- agora ele é meu!
- … o que?
- é… já comprou um poste?
- e pq eu compraria um poste, seu idiota?
- psicologia inversa. se vc bate num poste, a prefeitura faz vc pagar os danos… o poste fica sendo seu! é um jeito do governo dizer que precisamos controlá-los… eles fingem que não sabem de nada, nós fazemos o trabalho sujo.
- E pq esse tipo de psicologia funcionaria? O prejuízo é seu… imbecil!
- te disse, não há como evitar. além disso, sou nacionalista dos bons… detestaria ver um poste no poder!
- ah, tá! nada de postes no poder…
- eles me tiram das ruas, eu tiro o poder deles!
- fico feliz em saber que podemos contar com cabeças pensantes que nunca colocariam postes no poder.
- … bom, eu faço o que eu posso.
(homem vai para a rua, estende os braços)
- Táxi!?!?
Marcelo Veloso
16.5.07
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