a primeira rua tem cheiro de café
nessa ponta um casario antigo
na outra uma cadeia cinzenta
entre uma coisa e outra,
um campinho
e a gurizada
o uniforme de algodão
e a bola de capotão
a segunda tem cheiro de fé
cá o ponto de jardineiras
lá o externato de freiras
e ali na santa casa de misericórdia
tem gente nascendo
tem gente morrendo
e na janela do porão
estórias mal contadas,
acorrentadas
de estimação do médico alemão
a terceira tem cheiro do escuro
aqui, o racionamento
pra lá do fim, o juízo
são segredos
e faróis apagados de um carro
tem trabalhador despedido
e um futuro incerto
pronto para ser esquecido
a quarta tem o seu cheiro
começa pela minha espinha
termina na outra mão
marcelo veloso
28.7.05
26.7.05
a cata
quem em terra e céu e mar,
sem cessar,
suporta esse corpo revolto?
quem tu?
que arde o sol acanhado,
ajuda,
submisso e santificado,
eu,
miserável banido em deserto vago.
sem cessar,
suporta esse corpo revolto?
quem tu?
que arde o sol acanhado,
ajuda,
submisso e santificado,
eu,
miserável banido em deserto vago.
25.7.05
mais escuro
o desejo chegou e sentou na janela... veio tomar café
como alguém há muito tempo não visto
um estranho bem-vindo
um distante vizinho
e disse
as noites nesse seu calendário de parede estão passando... passeando
você continua lendo essas cartas velhas
rindo e pensando o quanto tudo mudou
e ainda não acordou esta manhã porque não foi para a cama
ficou assistindo o branco dos olhos se tornarem vermelhos
café? (perguntei)
marcelo veloso
como alguém há muito tempo não visto
um estranho bem-vindo
um distante vizinho
e disse
as noites nesse seu calendário de parede estão passando... passeando
você continua lendo essas cartas velhas
rindo e pensando o quanto tudo mudou
e ainda não acordou esta manhã porque não foi para a cama
ficou assistindo o branco dos olhos se tornarem vermelhos
café? (perguntei)
marcelo veloso
20.7.05
chico e o ranço do orco
tem quem goste do céu pelo clima e prefere o inferno pela companhia
mas é na porta do inferno que se pensa um pouco... só um pouco
acorde francisco
acorde deste sono profundo
venha ver o que preparamos para você
um salão de dar inveja
de encher os olhos... diria
acorde e abra a porta
nem que seja só uma fresta
não seja bobo
ninguém vai rir de você
calce seus sapatos e desça as escadas
não... não quero
não vou
não me encham a paciência
tenho mais o que fazer do que ser bajulado por um bando de imbecis
além do mais... estou cansado de tanta bobagem
não é porque aconteceu o que aconteceu que vou ser tratado de forma diferente
me embrenhar nessa corsa infernal
que continua sugando o sangue quente que ferve
e ferve
tem dias que a gente acorda
e não acorda
com vontade de enxergar
abri os olhos
pois os conservava fechados até então
vi o nada e abri os olhos ainda mais
e a vermelhidão do nada me deixava cego
consciente ainda que me julgasse imerso num pesadelo
ou quem sabe estivesse louco
diria consciente porque não é fácil abandonar essa maluquice
consciente e cego
tentei enfiar o dedo nos olhos
não achei dedo nem olho
e então fiquei temeroso porque nem dor me causaria ou alguma sensação
morto talvez
nessas condições... morto?
cheguei a gritar
mesmo sem voz
que não conseguia lembrar onde tinha guardado todos meus sapatos de golfe
meus tênis
as calças xadrez
e as camisas de popeline azul
quis pensar mais e de tentar cheguei a ouvir um neurônio estourar
e de pouco em pouco
a panela do orco foi fritando
quebrando e destruindo o que me parecia vivo
eu e o que eu pensava
não era tudo
mas o que restava no fundo do poço era apenas um toco
morto?
é... morto
marcelo veloso
mas é na porta do inferno que se pensa um pouco... só um pouco
acorde francisco
acorde deste sono profundo
venha ver o que preparamos para você
um salão de dar inveja
de encher os olhos... diria
acorde e abra a porta
nem que seja só uma fresta
não seja bobo
ninguém vai rir de você
calce seus sapatos e desça as escadas
não... não quero
não vou
não me encham a paciência
tenho mais o que fazer do que ser bajulado por um bando de imbecis
além do mais... estou cansado de tanta bobagem
não é porque aconteceu o que aconteceu que vou ser tratado de forma diferente
me embrenhar nessa corsa infernal
que continua sugando o sangue quente que ferve
e ferve
tem dias que a gente acorda
e não acorda
com vontade de enxergar
abri os olhos
pois os conservava fechados até então
vi o nada e abri os olhos ainda mais
e a vermelhidão do nada me deixava cego
consciente ainda que me julgasse imerso num pesadelo
ou quem sabe estivesse louco
diria consciente porque não é fácil abandonar essa maluquice
consciente e cego
tentei enfiar o dedo nos olhos
não achei dedo nem olho
e então fiquei temeroso porque nem dor me causaria ou alguma sensação
morto talvez
nessas condições... morto?
cheguei a gritar
mesmo sem voz
que não conseguia lembrar onde tinha guardado todos meus sapatos de golfe
meus tênis
as calças xadrez
e as camisas de popeline azul
quis pensar mais e de tentar cheguei a ouvir um neurônio estourar
e de pouco em pouco
a panela do orco foi fritando
quebrando e destruindo o que me parecia vivo
eu e o que eu pensava
não era tudo
mas o que restava no fundo do poço era apenas um toco
morto?
é... morto
marcelo veloso
Assinar:
Postagens (Atom)